sexta-feira, 29 de abril de 2011

Um mestre do conto

Raro registro fotográfico

O curitibano Dalton Trevisan é, sem qualquer dúvida, o mais arredio dos nossos escritores contemporâneos. Não dá entrevistas e jamais se deixa fotografar. Agraciado com vários prêmios literários, quase nunca aparece para recebê-los. Toda essa mítica em torno de sua pessoa fez com que Dalton encarnasse seu personagem mais famoso, O vampiro de Curitiba. Imerso no anonimato, Dalton pode passear incólume por entre as pessoas e espiar de perto as relações humanas que servem de inspiração para suas histórias. Tal qual um cirurgião experiente, Dalton é capaz de dissecar com profundidade exemplar a realidade humana, para em seguida devolver ao leitor um espetáculo de miudezas e mesquinharias que de certa forma habita a vida de cada um de nós. Lendo Dalton Trevisan, é possível ter a sensação de estar-se nu diante de um espelho que realça mais que o desejado não só os defeitos do corpo, mas também os da alma.

Uma vela para Dario


Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.

Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.

Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.

Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.

Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.

Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.

A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.

Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.


Texto extraído do livro "Vinte Contos Menores",  Editora Record – Rio de Janeiro, 1979, pág. 20.


Retirado do site Releituras.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Quintal das lembranças


Os Novos Baianos

Passaram-se os anos, o mundo vertiginosamente mudou de direção e os sonhos de outrora hoje mais se assemelham com aquarelas infantis esquecidas na gaveta de um cômodo antigo. Mas na esteira do tempo, a epopeia musical engendrada  pelos Novos Baianos parece não ter envelhecido.

Tudo começou quando um jovem garoto chamado Moraes Moreira (Antônio Carlos Moreira Pires) partiu do interior baiano, mais precisamente da pequena Itauçu, encravada na Chapada Diamantina, rumo a Salvador, com a intenção de cursar Medicina.

Artista desde cedo em seu recanto natal, não demorou muito para que Moraes enveredasse por esse caminho. Entrou para o Seminário de Música da Bahia, onde conheceu o músico Tom Zé, de quem chegou a ser aluno. Foi Tom Zé que apresentou Moraes a Luiz Galvão, misto de engenheiro e poeta, e os dois tornaram-se os principais compositores dos Novos Baianos.

Não demorou muito para que um terceiro integrante viesse a juntar-se aos dois - Paulinho "Boca de Cantor". Crooner de orquestra, Paulinho já era um cantor escolado nas noites soteropolitanas, e veio a somar com seu talento musical mais qualidade às composições que ganhavam vida nos versos de Galvão e nas melodias de Moraes.

O apoio instrumental teve como base os integrantes de uma família de músicos de Salvador, a família Gomes, que deu ao grupo além do baterista, um jovem guitarrista de técnica apurada, fã confesso de Jimi Hendrix, capaz de misturar facilmente rock'n roll com baião e outros ritmos genuinamente brasileiros, chamado Pepeu Gomes.

O toque feminino ficou por conta de uma garota fluminense, natural de Niterói, que um certo dia resolveu fugir de casa rumo à Bahia. Chegando a Salvador, conheceu aquele grupo de músicos e não pensou duas vezes em juntar-se à trupe. Seu nome era Baby Consuelo. Com sua enorme energia e seu carisma, a menina de voz estridente deu uma nova vida ao conjunto.

E naquela altura Salvador já não mais comportava a convulsão criativa dos Novos Baianos. Partiram rumo ao Rio de Janeiro. Lá, dividiram um apartamento e posteriormente fixaram-se em um sítio na região de Jacarepaguá, onde era possível ver inscrito na bandeira do Brasil a expressão "Sítio do Vovô" no lugar do lema positivista "Ordem e Progresso".

Foi nesse período que certo dia receberam no apartamento em que moravam a visita de um homem elegantemente vestido, trajando um terno bem cortado, que ao se apresentar disse: - Prazer. Eu sou o João Gilberto! – para susto de todos. João Gilberto já era um artista mundialmente conhecido, mas interessou-se pela musicalidade daqueles garotos conterrâneos seus e resolveu apresentar o samba e a bossa nova a eles. E dessa mistura de elementos aparentemente tão díspares – bossa nova, baião, samba e rock – nasceu uma música de alta brasilidade, com DNA puramente auriverde.

Em 1972, pela recém criada gravadora Som Livre, presidida pelo produtor musical João Araújo (pai do cantor Cazuza), foi lançado o álbum mais importante dos Novos Baianos, Acabou Chorare. Fato curioso é que foi durante os ensaios que aconteciam na casa de João Araújo que o menino Cazuza, com apenas sete anos de idade, afirmou que seria músico.

Com a saída de Moraes Moreira do conjunto em 1975, os Novos Baianos perderam em inspiração. O grupo ainda seguiu até 1979, quando se desfez. Com dez anos de duração, os Novos Baianos fizeram pela música brasileira muito mais do que muita gente hoje não seria capaz de fazer em um século.

Brasil Pandeiro 

Samba da Minha Terra

Mistério do Planeta

Preta Pretinha

A menina dança

Arquivo TV Cultura - Trama/Radiola

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Vou-me embora pra Pasárgada...

Natividade - TO

Não, não é verdade o que postei no título, não vou-me embora pra Pasárgada. A bem da verdade, irei para aquela que considero minha Pasárgada, a pequena e secular Natividade, capital histórica do Estado do Tocantins. Uma semana para recuperar as energias e esquecer os desgostos da cidade grande.

Até mais!



Cachoeira do Paraíso

Centro histórico

O habitante de Pasárgada



Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
 (Manuel Bandeira)

Trecho do doc. "O habitante de Pasárgada", com Manuel Bandeira

quinta-feira, 14 de abril de 2011

«E N T R E A S P A S»


"Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário"




George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair - 25/06/1903 - 21/01/1950) - escritor inglês. Entre suas obras mais famosas, merecem destaque A Revolução dos Bichos e 1984

terça-feira, 12 de abril de 2011

Nas asas de Gagarin

E eis que neste 12 de abril comemora-se o cinquentenário da primeira viagem do homem ao espaço.

E eis que a homérica jornada espacial coube a um jovem cosmonauta russo de 27 anos, chamado Yuri Alekseievitch Gagarin.

E o que se passava na cabeça de Gagarin nos instantes que antecederam a partida da nave Vostok? Tivesse ele medo? E por que ele foi o escolhido? Talvez a resposta esteja na sua estatura. Diferentemente do biotipo padrão dos russos, Gagarin tinha apenas 1 metro e 57 centímetros de altura, estatura ideal para as dimensões mínimas do bólido.

E o filho de camponeses agora singrava rumo a mares desconhecidos, na mais solitária das viagens que um homem pode empreender. E lá do alto, durante os 108 minutos que esteve em órbita, Yuri Gagarin pode contemplar o minúsculo planeta incrustado na dimensão infinita do espaço, que oberservado dali parecia tão calmo e silencioso, para em seguida exclamar admirado: "A Terra é azul!".

E esta mesma Terra azul, habitada por homens negros, brancos, amarelos, vermelhos e por todas as cores resultantes da mistura dessas matizes, mesmo cinquenta anos após aquela viagem, jamais entendeu a mensagem de Gagarin: que por mais que levantemos fronteiras, que por mais que semeemos o ódio pelos nossos semelhantes, a Terra restará sempre igual lá de cima, uma minúscula esfera azul e silenciosa a girar no espaço sideral.

Diante dos fatos, só me resta cantarolar aquela musiquinha do Baden: "O astronauta ao menos viu que a Terra é toda azul, amor / Isso é bom saber porque é bom morar no azul, amor..."

O astronauta - Baden Powell

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Poemas de Nuno Júdice

O LUGAR DAS COISAS


Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.


Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.


Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de
                                                 [ sílabas.


Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a
                                                 [ voz
não fique queimada nesta paisagem negra.


Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que
                                                 [ indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.


Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as
                                                [ coisas saiam
de dentro deles e as possamos ver nos seus
                                                [ lugares.

  
O AMOR

Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?

Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.

Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.


NUNCA SÃO AS COISAS MAIS SIMPLES

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
 
 
* * * 
Nuno Júdice - ensaísta, poeta e ficcionista português.

Biografia e outros escritos do autor, conheça AQUI.

domingo, 10 de abril de 2011

Domingo se foi...

Encerrando as atividades por hoje reverenciando o saudoso Claudio Camunguelo.

Autodidata, mestre do samba e do choro, devoto fiel de São Jorge, a quem dedicava  na data de 23 de abril uma grande festa,  batizada como São Jorge de Camunguelo, verdadeira epifania que misturava catolicismo com umbanda, tudo regado a muita cerveja, samba e feijoada.

Claudio Camunguelo faleceu no dia 24 de dezembro de 2007, aos 60 anos de idade.

Fica aqui o registro desse artista genuinamente brasileiro.

Arlindo, Beth, Dudu e Camunguelo - Mulata Beleza/Meu Gurufim

Choro brasileiro

 Saravá!!

Aboio Sertanejo


Já havia lido alguma coisa a respeito, mas ainda tinha minhas dúvidas acerca da influência que o aboio sertanejo sofreu da cultura árabe.

Para quem não sabe, o aboio é uma espécie de canto de trabalho, uma forma de comunicação entre os vaqueiros, ou destes com a boiada. Atualmente, ainda é praticado em algumas regiões do interior do Nordeste, mas também sobrevive, ainda que de forma incipiente, em alguns estados do Norte e Centro-Oeste brasileiro, além do norte de Minas Gerais.

O aboio pode conter versos ou não. Na forma original, desenvolvia-se por meio de sons guturais, sob a forma de um chamado lamurioso, por meio do qual o boiadeiro conduzia o gado por longas distâncias. Acredito que o aboio em versos é uma variante do repente, fortemente influenciado pela literatura de cordel, mas que também nasceu da necessidade desse homem de vida sofrida conter a saudade, extravasando esse sentimento por meio de letras que pudessem contar sua história de vida.

Sobre a influência árabe, é importante lembrar que muitos dos escravos que desembarcaram no Brasil eram de origem moura, vindos da ilha da Madeira. Outros tantos, também muçulmanos, vieram de países como Nigéria e Sudão, de população islâmica. Dessa forma, o contato desses povos com os sertanejos primitivos promoveu uma espécie de miscigenação cultural, onde o aboio pode ser citado como exemplo.

Ilustrando esse caso, basta lembrarmos da figura do almuadem, ou muezim, que é o encarregado de chamar os muçulmanos para as cinco orações diárias do Islã. Assim, do alto do minarete - a torre mais alta de uma mesquita - o muezim entoa o azan, que é o chamado à oração.

Escutando-se um azan e um aboio, é possível notar traços de semelhança no que diz respeito à entonação das vozes. Escute e tire suas próprias conclusões.

 Azan - Turquia

Mesquita de Sarajevo, Bósnia

Aboio Sertanejo

Deoclécio aboiador

sábado, 9 de abril de 2011

«E N T R E A S P A S»




"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória"

José Saramago (1922 - 2010) - Escritor português. Vencedor do Nobel de Literatura em 1988.

 





* * *

 
Janela da Alma - por José Saramago

A terceira margem do rio

Um conto de João Guimarães Rosa




Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.

Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.

Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.

A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.

Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.

Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.


Conforme explicado pelo Arnaldo Nogueira Jr. do site Releituras, o presente texto foi extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32, cuja compra e leitura recomendamos. Conheça outros autores e novas histórias visitando www.releituras.com.


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Johnny Cash: o homem de preto

(Kingsland, 26 de fevereiro de 1932 — Nashville, 12 de setembro de 2003)


O velho Cash não fazia concessões. Foi cantor de country, porém não usava roupas coloridas. Foi contemporâneo de Elvis Presley e Jerry Lee Lewis, mas olhava com desdém pra esses caras. Cash deu algumas dicas que foram fielmente seguidas pelo pupilo Bob Dylan. Por um longo período suportou o vício de anfetaminas e outras drogas. Foi casado com June Carter por 35 anos. O velho Cash gostava de visitar presídios e cantar para os condenados. Ele teve treze filhos, sendo doze mulheres e um homem. A voz do velho Cash soava como um eco rouco no interior de uma caverna escura. Certo dia, Cash encontrou com Deus, mas disse a Ele que só iria para o céu usando suas vestes negras. E assim o homem de preto partiu numa viagem sem volta.

Man In Black

Well, you wonder why I always dress in black,
Why you never see bright colors on my back,
And why does my appearance seem to have a somber tone.
Well, there's a reason for the things that I have on.

I wear the black for the poor and the beaten down,
Livin' in the hopeless, hungry side of town,
I wear it for the prisoner who has long paid for his crime,
But is there because he's a victim of the times.

I wear the black for those who never read,
Or listened to the words that Jesus said,
About the road to happiness through love and charity,
Why, you'd think He's talking straight to you and me.

Well, we're doin' mighty fine, I do suppose,
In our streak of lightnin' cars and fancy clothes,
But just so we're reminded of the ones who are held back,
Up front there ought 'a be a Man In Black.

I wear it for the sick and lonely old,
For the reckless ones whose bad trip left them cold,
I wear the black in mournin' for the lives that could have been,
Each week we lose a hundred fine young men.

And, I wear it for the thousands who have died,
Believen' that the Lord was on their side,
I wear it for another hundred thousand who have died,
Believen' that we all were on their side.

Well, there's things that never will be right I know,
And things need changin' everywhere you go,
But 'til we start to make a move to make a few things right,
You'll never see me wear a suit of white.

Ah, I'd love to wear a rainbow every day,
And tell the world that everything's OK,
But I'll try to carry off a little darkness on my back,
'Till things are brighter, I'm the Man In Black.

Homem de Preto (tradução)

Bom, você imagina por que sempre me visto de preto,
Por que nunca vê cores brilhantes nas minhas costas,
E por que minha aparência parece ter um tom sombrio.
Bom, existe uma razão para as coisas que visto

Eu visto o preto pelo pobre e oprimido,
Vivendo no lado faminto e sem esperança da cidade,
Eu o visto pelo preso que há muito tempo já pagou pelo seu crime,
Mas está lá porque ele é uma vítima dos tempos.

Eu visto o preto por aqueles que nunca leram,
Ou escutaram as palavras que Jesus pronunciou,
Sobre a estrada para a felicidade através do amor da caridade
Por que, você pensaria que Ele está falando diretamente para você e eu.

Bom, nós estamos indo muito bem, eu suponho,
Na nossa fileira de carros reluzentes e roupas da moda,
Mas, então, somos lembrados daqueles que são excluídos,
Na frente, tem que existir um homem de preto.

Eu visto pelo velho doente e solitário,
Pelos descuidados que se tornaram frios por causa de uma péssima experiência
Eu visto preto em luto pelas vidas que poderiam existir,
A cada semana perdemos cem bons homens jovens

E eu visto pelos milhares que morreram,
Acreditando que o Senhor estava do lado deles,
Eu visto pelos outros milhares que morreram,
Acreditando que todos nós estávamos do lado deles.

Bom, existem coisas que nunca serão certas, eu sei,
E coisas que precisam de mudanças em qualquer lugar que você vá,
Mas, até nós começarmos a nos mexer para endireitarmos algumas coisas certas,
Você nunca me verá usando um terno branco.

Ah, eu adoraria vestir um arco-íris todos os dias,
E dizer para o mundo que tudo está ok,
Mas tentarei retirar um pouco da escuridão das minhas costas,
Até as coisas serem brilhantes, eu sou o homem de preto.

Ring of fire

Ghost riders in the sky

Hurt (música da banda Nine Inch Nails) - última música gravada pelo velho Cash

quarta-feira, 6 de abril de 2011

RECUSO-ME A ENCONTRAR ANTIGOS AMIGOS E QUEIMADURAS DE SEGUNDO GRAU...

 
Mestre Abujamra

Autor: Fabrício Carpinejar

RECUSO-ME A ENCONTRAR ANTIGOS AMIGOS E QUEIMADURAS DE SEGUNDO GRAU.
NÃO QUERO SUBMETER-ME A COMPARAÇÕES NEM CONVENCÊ-LOS DE QUE ESTOU DIFERENTE... SENDO IGUAL.
MANIAS SERÃO VISTAS COMO DEFEITOS. DEPOIS, COMO TRAÇOS DE PERSONALIDADE, ATÉ QUE SEJAM TRANSFORMADAS EM VIRTUDES.
TER SE ACOSTUMADO UM COM O OUTRO NÃO SIGNIFICA QUE AVANÇAMOS.
SEREMOS SEMPRE RESIDÊNCIAS GEMINADAS SE CORRESPONDENDO PELOS MUROS.

Sobre o autor:

O jornalista e poeta Fabrício Carpi Nejar, ou Fabricio Carpinejar, nasceu em Caxias do Sul no dia 23 de Outubro de 1972. É mestre em Literatura brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
A junção do seu sobrenome veio em seu primeiro livro poético, As solas do sol, de 1998. Ganhou o reconhecimento do público com Caixa de sapatos, livro publicado em 2003.


Quintal das lembranças


 Zé Rodrix (25/11/1947 - 21/05/2009)

Posso dizer sem medo que em todas as áreas que atuou, Zé Rodrix foi um cara acima da média. Como músico multi-instrumentista (dominava o piano, violão, acordeon, flauta, bateria, saxofone e trompete), pouco ou nada precisa ser acrescentado ao que já foi dito e escrito pelos críticos. Exímio pianista, ele foi o nosso Ray Charles, seu grande ídolo. Como compositor, inovou a música popular brasileira ao criar, juntamente com os parceiros Sá e Guarabyra, o folk nacional, batizado de Rock Rural. Quem não sabe cantarolar alguns versos da bela "Casa no campo", imortalizada pela Elis Regina? Segundo ele, a música foi composta aqui em Goiânia, ocasião em que viajavam em turnê pelo país, em um quarto de hotel pestilento tomado por percevejos.

Também foi publicitário e escritor. Na publicidade, criou jingles para marcas e empresas famosas, como Chevrolet, Marisa, Extra, Pepsi. Como escritor, atividade que passou a desempenhar com afinco a partir do ano 2000, uma ressalva deve ser feita. Leitor compulsivo, sua biblioteca particular contava com mais de 12.000 títulos. Ligado à maçonaria, Zé Rodrix estudou com profundidade exemplar todo o percurso desta sociedade secreta, o qual foi reproduzido nos três livros que lançou, reunidos na "Trilogia do Templo", sendo eles: Johaben: Diário de um Construtor do Templo, Zorobabel: reconstruindo o templo e Esquin de Floyrac: O fim do Templo.

Sobre a trilogia (via Wikipédia), o escritor Luis Eduardo Matta afirmou no prefácio do terceiro volume: "Nunca, em toda a trajetória literária brasileira, um escritor se aventurou com tamanha obstinação por uma saga épica monumental como é o caso desta trilogia, que se debruça sobre os primórdios da Maçonaria, uma das fraternidades iniciáticas mais antigas do mundo, mesclando erudição e fluência, onde realidade e ficção se confundem num incrível mosaico narrativo". Ainda de acordo com Matta, a Trilogia do Templo foi uma das mais fantásticas obras literárias produzidas no Brasil na primeira década do Século XXI.


Sá, Rodrix e Guarabyra - Mestre Jonas


Zé Rodrix e Tavito - Casa no campo


Sá, Rodrix e Guarabyra - Jesus numa moto